Porque só as músicas de amor valem a pena, sempre. Link da Pipilotti Rist
Texto Velho
Esse texto é antigo, do meu finado blog uol. Publicado novamente a pedido do próprio Bob.
Momento Antropológico – Como ser surreal ao dispensar um xaveco
Depois de muito titubear e pesar os prós e os contras, finalmente me demiti. Enquanto uma parte de mim sente que saiu um peso do coração, outra diz: E agora, sua louca, o que será? Assim passei o fim de semana, sem ânimo para sair, em deliberação interna.
No sábado, fui ao aniversário de um amigo, carinhosamente apelidado de Vovô Garoto. Fiquei lá na mesa extensa da Merça, nosso bar favorito. Bebia minha água com limão, um novo drink que adotei. Não falava nada porque não sabia o que dizer. Estava absorta. Encontrei um ex-namorado que não via há tempos, e ele me dizia: – Pensei em você hoje! Você é uma entidade! Uma entidade!- enfático. E me falava de física quântica, em rodeios, e eu não entendia o porquê de nada daquilo, e onde ele queria chegar. Aquela coisa da entidade… Ouvia uma conversa aqui e outra lá. Respondia monossilabicamente, pensando no fim de semana passado que perdi, da virada cultural. Creio que fui orientada espiritualmente a não ir. As palavras que ouvi sobre o evento foram: periclitante, insustentável, impraticável, mundo bizarro, turba enfurecida, Gladiators cancelado, embuste, tumulto, guerra, liquidação de calçados Dic… Eu não prestava atenção em nada e pensava em mil assuntos, de forma que todos eram umas professoras do Charlie Brown.
O amigo que sentava ao meu lado estava em apuros. Uma garota em estado avançado de embriaguez investia no rapaz com um descaro admirável. Num momento em que ele se levantou, ela chegou a se abraçar à coxa do indivíduo, que me olhou com cara de pânico. Parece que Bob, o amigo, não rolaria na grama com ela, e além do mais, ela estava emborrachadíssima. Comecei a ouvir a conversa como quem está alheia. Era uma mesa longa e ninguém se comunicava direito. E então ouvi a desculpa masculina mas irrecusável e escabrosa dos últimos tempos. Bob, na iminência de um ataque, falava para a garota, enquanto beliscava umas castanhas num pratinho:
-Sabe o que é? Estou com um problema de canal… O dente fica meio solto, daí às vezes entra uma comida. E às vezes ela fica lá, no buraco do dente, por sabe-se lá quanto tempo, talvez um dia inteiro… – Falava isso e ao mesmo tempo mastigava e enfiava um dedo na boca, indicando o local, como se estivesse mostrando a um dentista. Pegou um palitinho de dente, e ainda acrescentou – Acho que estamos num timing errado.
Uh! Esperei uns dois minutos para não dar na cara e só depois ri. Foi irresistível e acabei rindo meio alto. Alguns me encararam com curiosidade.
Como sei que o pior da embriaguez é a ressaca moral, fiquei na minha. Não queria constrangê-la de forma alguma. Aquela ousadia feminina me fascinava, e o papo do canal então! Considerei até a possibilidade de ter vivido uma alucinação auditiva.
Não durei muito no bar. Fui embora ainda reflexiva, cheguei em casa e tive uma bela noite de insônia que durou até as 11 da manhã de hoje. Fiquei pensando no que fazer daqui pra frente, agora que não tenho mais um emprego chatíssimo, nos freelas que nunca se sabe, naquele rapaz blasé pouco merecedor da minha atenção, nos enigmas da vida: de onde viemos, pra onde vamos? Basicamente, pensando na morte da bezerra. Percebi que o emprego era um porre, assim como o eram alguns freelas, assim como o rapaz era apenas mais um blasé, e que nenhuma dessas questões (exceto De onde viemos e pra onde vamos) era digna de atenção. O que me intrigava mesmo era: Será que garota venceu a resistência e o bafo hipotético de Bob?
Tudo é possível. Cenas do próximo capítulo….