Texto anônimo tirado do livro Futuro Proibido, de suposta autoria de Hakim Bey. Tive de editá-lo porque é muito extenso para um blog. Recomendo o conto e o livro, da Editora Conrad.
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Geografia e Descrição Física
A ilha de Sonsorol, no Pacífico, um vulcão extinto cercado por recifes de coral, situa-se a 5 graus acima do Equador e a 132 graus de longitude, cerca de 650 km ao leste do extremo sudeste das Filipinas e 480 km ao norte do Estreito de Dampier, na Nova Guiné. Ela possui aproximadamente 16 km de diâmetro e uma área de cerca de 145 km².
O clima é típico da região: temperaturas balsâmicas e constantes (28° a 33° o ano todo), eventuais tufões violentos, monções de setembro a fevereiro, brisa do mar ao longo da costa, floresta tropical úmida e abafada nas encostas mais baixas do Monte sSonsorol (especialmente densa na parte norte da ilha, exposta aos ventos alísios). Próximo ao cume o tempo é quase permanentemente nublado, fresco e nebuloso, e a selva se estreita em um “floresta de nuvem” – musgos, pequenas árvores envoltas em musgos, hepáticas e orquídeas epífitas. Sonsorol possui água fresca em abundância, incluindo cachoeiras nos morros até o pequeno rio, Garuda.
Vegetação: fartura e variedade típica das regiões tropicais, incluindo muitas espécies de orquídeas e uma pletora de outras flores e frutas tropicais. Antigamente, copra, taro, cana-de-açúcar e abacaxi eram plantados na região de savana do sudoeste. As plantações, agora abandonadas, nunca mais foram cultivadas, com exceção de alguns pomares de coco reservados para o consumo local (todas as pares da planta são usadas, em culinária, construções, etc.).A fauna nativa é escassa, na sua maior parte limitada a pássaros e insetos (que podem vir a ser irritantes). Porcos, galinhas, cabras e outras espécies européias foram incorporadas no século XVII. A pesca é espetacular, e oferece tanto a dieta básica quanto uma boa oportunidade para atividades esportivas.
De forma quase circular, e sem nenhuma baía ou braço de mar decente, Sonsorol a principio pareceria estrategicamente inadequada para a sua antiga função de encravamento pirata. Contudo, os recifes de coral que cercam a ilha formam uma espécie de lagoa, na qual os navios podem ficar ancorados com bastante segurança, mesmo com mau tempo.
Como Chegar Lá
Sonsorol continua sendo uma das ilhas mais inacessíveis em toda a área. Nenhuma linha aérea comercial pousa lá. Navios cargueiros levam carga para Sonsorol de Mindanao, Java, Taiwan, Hong Kong e outros portos.
Port Watson é hoje o único porto de entrada para Sonsorol, e não existe ali nenhuma Autoridade de Alfândega e Imigração. No entanto ninguém deve esperar passar despercebido em uma cidade tão pequena. Qualquer um que fique mais de um mês provavelmente será solicitado com educação a requerer residência ou então ir embora (ver Como se Tornar um Morador).
Nem Port Watson nem a republica possuem policia, portanto os moradores tendem a ficar atentos para problemas e se responsabilizam por solucioná-los. Visitantes hostis, insultuosos ou estrepitosos costumam apanhar de membros do comitê de vigilância ou da Milícia do Povo, e são banidos no próximo navio de partida. Geralmente os visitantes são bem vindos, e os habitantes amigáveis até em excesso.
Historia da Independência
Os habitantes aboriginais, de ancestrais malaios e polinésios miscigenados, podem não ter chegado antes do s[éculo XIV; se eles encontraram e absorveram algum grupo mais antigo, não se sabe. Indícios de suas línguas sobrevivem em nomes de lugares, terminologias de artes e ofícios, etc, ainda que o atual dialeto consista em uma mistura perturbadora de linguagem indonésia, sulauês, espanhola, holandesa e inglesa. Tudo o que resta do período pré-histórico, ou pré-Moro é uma enigmática ruína perto do topo de uma cachoeira.
Em meados do século XVII, Sonsorol foi invadida por piratas de Sulu, que se autodenominavam Moros. Seu almirante semi-lendário, o sultão Ilanum Moro, estabeleceu-se com alguns de seus seguidores.
O islamismo foi adaptado de uma forma bastante branda pelos Moros de Sonsorol.
Infelizmente nenhum vestígio arquitetural desta “Época de Ouro” sobreviveu à invasão e à conquista pelas forças espanholas, sob o comando do governador das Filipinas, Narciso Clavería y Zaldua, em 1850. Os sultões de Sonsorol foram praticamente os últimos piratas Moros a serem dominados, e conquistadores impuseram-lhes um regime colonial destrutivo e predatório, incluindo converção forçada e completa escravidão.
Em 1867, porém, os espanhóis já haviam perdido o interesse pela ilha, que não produzia nada além de copra e desgosto. Os governadores holandeses da Indonésia anexaram Sonsorol ao seu império após uma única batalha superficial.
A influencia holandesa é ainda forte em Sonsorol. Quase não há famílias n ilha que não tenham sangue europeu. Palavras holandesas sobrevivem no dialeto.
Naquele período, a aristocracia Mora retrocedeu a um tipo de islamismo brando. Aos sultões foram concedidos títulos de cortesia, mas eles permaneceram sem poder e sem dinheiro.
Em 1907, o sultão de Sonsorol, Pak Harjanto Abdul Rahman Moro I, encenou um trágico levante contra as forças coloniais. O sultão e outros conspiradores foram executados e o título abolido. A ilha, então, afundou em depressão sonolência, indiferença e obscuridade.
Em 1942, os japoneses fizeram uma conquista fácil na ilha, mandando europeus para campos de prisão em Java.
Os novos chefes supremos japoneses comportavam-se de maneira severa, quase sádica, e um sentimento antinipônico sobrevive até hoje. Em 1945, um navio tripulado por forças navais neozelandesas e australianas chegou para libertar a ilha. Os japoneses planejaram uma resistência suicida, e a população nativa, liderada pelo sultão Pak Harjanto III juntou-se à batalha pela liberdade no dia 20 de julho.
O sultão, herói da libertação, começou a agitar para a independência. Sincero admirador da democracia ocidental, ele acreditava que a liberdade política resolveria os problemas da ilha. Em 1962, o Protetorado sob comando da Austrália e Nova Zelândia permitiu um plebiscito e escolheu independência sob uma Monarquia Constitucional.
História desde a Independência
Em 1967, o sultão enviou seu jovem herdeiro, Pak Harjanto Abdul-Rhaman IV, para a faculdade nos Estados Unidos. O Príncipe Herdeiro obteve uma bolsa de estudos na Universidade Berkeley, e se formou em economia.
Na Califórnia, ele se sentiu atraído pelo “Movimento” – direitos civis, antiguerra, liberdade de expressão, consciência ecológica, Haight-Ashbury, etc. – e logo se viu convencido pela filosofia anarquista libertária. Na faculdade conheceu Travis B. O’Conner, descendente e herdeiro de uma família do ramo do petróleo em Oklahoma/Texas. O’Conner ficou fascinado com as historias de Sonsorol, e juntos os jovens amigos maquinavam e sonhavam.
Eles raciocinavam da seguinte forma: quase todas as utopias clássicas – da República de Platão à Fazenda Brook – envolvem um alto grau de abstração. A implementação de idéias abstratas na sociedade requer um alto nível de controle autoritário correspondente. Como resultado, a maioria das utopias em prática se revelou opressiva e paralisante – “planejamento social” pareceria uma ofensa por definição contra o “espírito humano”. O’Conner e o sultão desejavam uma utopia anarquista, sem autoridade – e mesmo assim eles perceberam que a utopia é impossível sem a abstração.
A maior e mais opressiva de todas as abstrações modernas são as finanças, o negócio bancário, a criação da riqueza a partir do nada, da pura imaginação. Ora, os piratas do passado viviam praticamente sem autoridade e eles criaram “utopias” sem leis ou encraves financiados por riquezas roubadas. Os dois jovens amigos decidiram que, uma vez que Sonsorol não poderia produzir nenhuma riqueza de verdade, eles deveriam seguir o procedimento dos piratas e roubar a energia que precisavam para financiar e fundar a sua utopia. O ladrão de bancos rouba bancos porque ali é que está o dinheiro – mas o banqueiro rouba bancos e até os seus próprios depositantes com total impunidade legal. Os sonhadores da Califórnia decidiram entrar nos negócios bancários.
Em 1979, o velho sultão morreu e seu filho o sucedeu no trono de uma ilha esquecida e arruinada. De imediato, ele e O’Conner começaram a pôr seu plano em prática. Começaram com a criação de um banco mercantil chamado Associação de Poupança e Empréstimos Ilanum Moro (ironicamente batizado com o nome do pirata fundador da dinastia). O Banco, utilizando-se das relações e do capital da família O’Conner, mudou-se para Port Watson e deu início as operações com proteção de regulamentação fiscal: subsidiários fantasmas, registros livres de impostos, “intermediários” e “gráficos estranhos”, especulação da moeda, atividade secreta intermediária para sociedades chinesas em terra, lavagem de fundos para certos “homens de negócio” chineses transoceânicos, contas numeradas e assim por diante. Port Watson foi planejado para usufruir uma liberdade quase total da lei, com o banco praticando uma forma nova e invisível de pirataria. Uma vez, para sua eficácia, ela poderia talvez ser chamada de Pirataria Espacial!
O Banco de Sonsorol possui poucos “bens reais”, poucos que podem ser saqueados – sua riqueza existe em grande parte em memórias de computador. Suas maquinações discretas são toleradas por interesses bancários internacionais; afinal de contas, uma conta cega ou algo do tipo é sempre útil, de tempos em tempos, até mesmo nos círculos financeiros mais respeitáveis. Quase da noite para o dia (1976 – 1980), Sonsorol se tornou moderadamente próspera.
Todo cidadão de Sonsorol e morador de Port Watson, criança, mulher e homem, tornou-se um acionista eqüitativo no Banco. Todos – inclusive o sultão e O’Conner – possuem exatamente uma ação dos lucros. Em 1980, cerca de mil pessoas em Port Watson e duas mil em Sonsorol recebiam, cada uma, um dividendo anual de cerca de US$ 4.000. Em 1985, a população total chegou a nove mil e o dividendo a um pouco mais de US$ 5.000 – praticamente uma renda garantida.
Além da criação de Port Watson e do Banco, muito poucas mudanças foram feitas na estrutura legal de Sonsorol, que continua sendo (ao menos no papel) uma república de estilo anglo-americano com legislação, exército, polícia, educação compulsória, impostos e assim por diante. Nenhum poder estrangeiro pode acusar a ilha de “anarquia” – e em todo caso, o Governo Trabalhista da Nova Zelândia assinou recentemente um tratado de defesa, que oferece proteção e reconhecimento internacional para a república. Em 1979 o sultão abdicou de todas as funções executivas e se reduziu a uma figura cerimonial. Como ele colocou, “eu alcancei o estado do Rei-Sábio taoísta descrito no Chuang-Tzu: eu me sento em meu trono voltado para uma direção propícia – e não faço absolutamente nada”.
Na prática, no entanto, as funções da república caíram totalmente em desuso. Nenhum exército ou polícia existe porque ninguém se alista neles. Em vez disso, uma milícia do povo voluntária trabalha em emergências (extremamente raras até hoje). Impostos não são coletados. A legislação não aprova mais nenhuma lei nova (embora se reúna de tempos em tempos para debater projetos e questões filosóficas). As escolas existem, mas a freqüência é voluntária. Ninguém precisa trabalhar, e muitos consideram sua cota de ação suficiente para sustentar vidas de um dolce far niente polinésio. Qualquer pessoa que tenha objeções quanto à “monarquia minarquista” da república pode se mudar para Port Watson, onde não existe absolutamente nenhuma lei.
O “verdadeiro trabalho” de Sonsorol, negócios bancários, pode ser conduzido por um punhado de hackers de computador e negociantes astutos. Contudo, o sultão e O’Conner queriam ver Port Watson se tornar uma comunidade libertária genuína, e estimularam a imigração oferecendo empréstimos sem juros e até mesmo subvenções integrais a pessoas prestativas e solidárias. Diversas organizações coletivistas foram fundadas: o Centro de Energia (ver), uma cooperativa para energia alternativa, tecnologia apropriada e agricultura experimental. As Academias são voltadas para educação e pesquisa – escolas para crianças e filosofia natural de todos os tipos.
Pede-se aos novos colonizadores em Port Watson apenas para concordar em viver de acordo com este anti-sistema, para doarem um dia por mês para projetos comunitários e para se absterem de comportamentos coercivos ou opressivos.
Este acordo é chamado de “assinar os Artigos”, de acordo com o velho costume entre os bucaneiros e corsários. De fato, a forma de governo em Port Watson poderia ser chamada de Pacto de Piratas – ou talvez comunismo lassez-faire – ou anarcomonarquia (uma vez que cada ser humano é considerado um senhor livre ou agente soberano).
A terra só é possuída quando é ocupada e usada. Uma comunidade típica pode consistir de uma única construção sem terreno, com três ou quatro membros (talvez até um núcleo familiar), ou uma cooperativa do tamanho de uma fazenda, com 12 a 25 membros e várias casas. A independência econômica torna a vida solitária praticável, mas um grupo pode juntar recursos, permitir-se uma moradia melhor e dividir luxos. Quase todas as pessoas pertencem a alguma forma de cooperativa, associação ou irmandade, de um clube de jantar informal até comunidades de utopias ideológicas rigorosas (a maioria nas montanhas ou fora da cidade) “Falanstérios” ou grupos de afinidade erótica são bastante comuns, assim como corporações de artesanato e cultos esotéricos (ver Atividades Culturais/Espirituais).
Palavras do sultão:
“Ninguém que ame a liberdade pode ouvir falar de Sonsorol sem saudades, inveja ou nostalgia de alguma coisa desconhecida ou desejada… Sonsorol poderia ser criada em qualquer lugar – nada cria empecilhos a não ser a consciência e o poder inflexível daqueles governantes que se alimentam de consciências falsas como vampiros. Nós convocamos uma rede de Port Watsons a envolverem a Terra: um, dois, muitos, um número infinito de Port Watsons! Deixe que aqueles que nos invejam transmutem sua frustração em raiva e insurreição, em uma determinação para usufruir a utopia agora, e não em alguma terra do nunca depois da morte ou da Revolução. Nós alcançamos aqueles que têm saudades de nós no terceiro mundo dominado pela pobreza, no segundo mundo asfixiado pela ideologia e no ocidente despedaçado pelas ilusões. E nós sussurramos a milhares de quilômetros de distância para dizermos a eles:“Não percam a esperança. Port Watson existe dentro de vocês, e vocês podem torná-lo real.”