Neves, operador de telemarketing, acabara de constituir família e ter o primeiro filho, naquela época com dois meses. As coisas que Neves mais abominava eram meia furada, gerundismo (ironia de sua profissão) e o nome Neves. O que aconteceria se ele morresse na rua e uma de suas meias estivesse furada, com furo no dedão? Seria humilhante, apesar de estar morto. O que as pessoas iriam dizer? E por que, por mais que ele evitasse revelar seu detestado sobrenome, sempre conseguiam descobrí-lo? E por que, e o que era pior, começavam a chamá-lo de Neves assim que obtinham essa informação? Desde cedo lutou para ser um homem convencional, mas as coisas não são bem assim, a vida não é nada convencional. E Neves era um tiozinho jovem.
Ele e a esposa estavam entocados em casa desde o nascimento do filho e ambos queriam espairecer ao ar livre e ter algum contato social. Era domingo e resolveram ir ao parque para encontrar amigos, beber cerveja, fumar maconha, ler os classificados de imóveis e rir à toa. Riram bastante antes que a vida risse de suas caras de forma bizarra naquele mesmo ensolarado e fatídico dia. As 18h os seguranças já apitavam e os quero-queros esperneavam: o parque estava para fechar. Neves e seu séquito caminhavam em direção à saída, quando este sentiu um forte apelo da natureza e teve de ir ao toilette.
A esposa, o filho e os amigos aguardavam fora do banheiro. Todos olhavam encantados a criança, e o clima era agradabilíssimo, de um dia feliz. No princípio foi engraçado. Passados 10 minutos começaram as piadinhas sobre a demora no banheiro: Número 2? Foi comprar cigarro para nunca mais voltar?
Mas quando decorridos 30 minutos desde a entrada na casinha, o clima já estava tenso, escurecia, o bebê chorava e as pessoas começavam a se preocupar. O segurança do parque ainda verificou o interior do banheiro masculino antes de trancar o recinto à chave: não havia ninguém lá. A esposa com o filho e os amigos foram até a entrada do parque e comunicaram o sumiço. Estavam mudos, perplexos e surreais. Toda a alegria eufórica do dia de sol e das piadinhas havia se transformado numa sensação de terror esdrúxulo. Os seguranças abriram novamente o banheiro para saber se ele desmaiou, ou sei lá, se alguém teria pisado na cara dele. Ninguém queria pensar em violência mas àquela hora a coisa estava difícil.
- Ele deve ter ido no mato – disse o segurança sarcástico e folgado.
Foi rechaçado em sua teoria por quatro testemunhas, que o viram entrar no recinto com os próprios olhos que esta terra ainda há de comer. A situação da esposa era periclitante ao extremo.
-O que direi ao meu filho, às pessoas, à sociedade? Que meu marido foi ao banheiro e nunca mais voltou?! – só pensava nisso, incomodada e confusa por esta situação tão sem pé nem cabeça – O que as pessoas vão dizer, meu Deus??
Naquele dia, assim que entrou em um dos compartimentos do banheiro, Neves passou instantaneamente por um portal (como em Caverna do Dragão) e nunca mais voltou.
20/10/2009 às 17:04 |
sensacular, Mary…
21/10/2009 às 13:41 |
Coitado do Neve. O portal tinha que ser no banheiro?
03/11/2009 às 16:28 |
só podia ser o Neve para sumir no banheiro! mas eu acho que as coisas sempre estão encaixadas para aquele que tem o toque da seda que todo mundo gosta!